"Todos os meus amigos escrevem. Todos os meus amigos têm livros. Eu leio. Sei o que sou: leio o que os outros escrevem." E tu? O que és? Senta-te comigo, com um sorriso nos lábios e um livro aberto nas mãos.

Quarta-feira, Janeiro 19, 2005

A minha viagem

Faltam poucos dias para me ir embora. E começo a ficar ansiosa. É agora que penso a sério nas razões que me levam a querer sair. E dizê-lo custa-me. Porque me expõe demasiado. Mas gostava que algumas pessoas soubessem porque vou, e que não pensassem que viajo pelas razões habituais de quem viaja. Saio porque há algum tempo que não me sinto bem. Não é assustador, não é patológico. Nem sequer faz comichão no dia-a-dia. Mas sei que preciso de alguma coisa, para modificar outras coisas. Preciso simplesmente de me afastar, porque não me soube afastar aqui. Porque preciso de me concentrar na maneira como gosto das pessoas à minha volta, na maneira como digo não, na maneira como me disponho. Preciso que estas sejam características que não se misturem com a Ana que quer ter um filho André. E a determinação é tanta, mas vai-se perdendo naquilo que quero mostrar que consigo dar. O problema não é de ninguém a não ser meu. Sou eu que não sei separar o joio do trigo. Esta é a minha motivação. O resto virá por acréscimo. O país, com o qual sonho desde pequena. Viajar, que é o verbo que estará sempre no infinitivo, porque jamais deixarei de o utilizar. Paleio, paleio, pessoas, conversas, dançar, dormir, parlare, pastar (vt. Do latim, fazer pasta), estudar, ler, escrever. Mas principalmente fazer uma pausa. E infelizmente tenho que usar o termo pausa, porque o que queria mesmo era que o tempo deixasse agora de ser importante. Ia para lá no Inverno, mas também podia ir na Primavera, não interessava, podia ir numa monção qualquer, mas estaria geográfica e temporalmente afastada.
Vou ter saudades, não muitas, mas vou ter. De momentos pontuais, com pessoas específicas, da cidade, da minha casa. Não vou perder nada que não possa achar de novo mais tarde. Acho eu. Mas em vésperas anunciadas da minha partida, tenho medo. Nem sequer é ansiedade, mas medo mesmo. Medo de ser uma viagem egoísta. E ao mesmo tempo medo de me aperceber que vou estando melhor sozinha. E sozinha no sentido de me preocupar mais, de deixar de querer ser “mãe” antes de tempo.
Andava com medo de dizer isto. Mas é por isto que viajo, porque quero estar um bocado sozinha. E conhecer pessoas novas ou estar com novos amigos não é incongruente. Porque agora está tudo parado, só se ouve uma voz ao fim da rua, uma daquelas vozes finas e irritantes, que entram nos ouvidos e dificilmente saem, passam o resto da vida a morar que nem parasitas dentro do meu sistema auditivo. Que se lixe, vem comigo para fora deste mundo. Pode ser que um dia me faça companhia. E há algum tempo que me levanto com o corpo dorido, e sinto que o meu corpo é o reflexo de como me sinto, e aparentemente estou bem, psicologicamente estou calma, mas os médicos dizem que não. Que ando nervosa, que tenho de relaxar. Por isso vou-me dar esta oportunidade, de ir e voltar com a certeza de quando estou bem ou não. Porque agora não consigo ver isso, vejo-me sempre bem. E isto não é verdade. Porque acordo com o corpo dorido, e sei que não é do colchão, mas sim do medo, da certeza que ainda não descobri o que quero ser. Estou a depositar muito nesta viagem e acho que vou vir de lá mais feliz. Com uma felicidade não tão aparente como esta que sinto agora, e que sinto mesmo, não a invento. Mas sei que sou eu a contornar uma rotunda, a andar às voltas.
É um peso que tenho que afastar de mim. Preciso disto.

2 Comments:

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