Olá,
Então, como estás? Como vai essa vida? Que tens feito neste últimos tempos? Ainda estás por aí? Tenho-me lembrado de ti, algumas vezes, de soslaio.
Por aqui tudo bem. A cidade é bonita, pequena, cabe na palma de uma semana e vê-se bem a pé. Ou de bicicleta. E perguntas-me tu: mas andas de bicicleta? Sempre. Recordo aqueles sábados em que tinha vontade de andar de bicicleta pelos campos de Alcobaça e Nazaré. Pelos vistos regredi, nisto sim. Andamos todos de bicicleta. Uma comunidade de ciclistas, com regras e tudo. Mas eu teimo em quebrá-las. Condução divergente.
Bonita a cidade, com este tempo de sol, translúcido. Tem uma praça que irias gostar, é grande, enorme, a maior que alguma vez viste, com um lago, namorados sentados na relva, intelectuais a ler livros russos, crianças a andar de triciclo, velhotes a conversar sobre outros tempos. Ias gostar, tanto como eu gosto. E traz dinheiro no bolso porque há um mercado ao Sábado, com coisas giras. Não deixo de ter saudades de Lisboa, é a minha cidade, mas estou bem aqui, a experimentar a sensação de estar num sítio pequeno em que reconheço caras e me sinto reconhecida. Aparece cá que vamos comer um gelado e atirar milho aos pombos em Veneza. Eles até vêm à mão. E depois podíamos andar a pé. Apenas. E falar sobre a nossa vida, aquilo que tem sido. Ou talvez nos apeteça rir apenas. Logo se vê. Aparece e logo se vê.
A casa é de facto muito bonita, gosto imenso, é no centro da cidade. Aí sempre tive o problema de ir para casa à noite e agora vou a pé para qualquer sítio. Imagina tu o que é viver no Rossio…pois assim estou eu. As pessoas são simpáticas, a comida é muito boa, a televisão fica melhor desligada, a música faz-me pensar que aí temos um gosto mais abrangente, as casas são bonitas, as ruas estão bem tratadas, os bares são giros, a burocracia é lenta como aí, os telemóveis são fonte de grandes rendimentos para o país, imagina tu que quando carregamos o telemóvel tiram-nos sempre dinheiro, carregamos com 10 euros tiram-nos 2 euros, carregamos com 5 euros e tiram-nos 1 euro, cada sms custa cerca de 20 cêntimos e paga-se os relatórios de entrega. Compensa pagar a um mensageiro.
Por enquanto os dias estão calminhos. Andam todos a estudar por aqui, andam todos em exames, ou então a viajar, ou a última moda, estar-se doente. Toda a comunidade está doente, incluindo eu. Mas se ficar doente aí significa estar deitada no sofá, com chazinho e sopinha feita pela mamã e a ouvir um belo programa de animais com a voz do Euládio Clímaco, aqui significa o desespero absoluto. Não há mãe para nos compreender e dizer que de facto somos a pessoa mais doente do mundo e que estamos a morrer e a televisão teima em dar programas dos anos 80. Tudo é em italiano, este é um facto estanque, mas os programas são mesmos maus. Para além de ter bastantes canais de televendas e programas de confidências e astrologia, as séries estrangeiras que dão são dos anos 80, séries que deram aí no início da televisão a cores.
No outro dia fui sair à noite, a uma discoteca que ao domingo tem festa de Erasmus. Quando me vim embora, andei cerca de 15 minutos de bicicleta. Não vi uma única pessoa, foi aí que me apeteceu despir e andar de bicicleta nua. Estás a imaginar? Andar pelo meio da rua mais importante de uma cidade, passar pelas montras Armani, pelos Bancos toda nua! O potencial de uma cidade vazia é fantástico. Podes fazer qualquer coisa. Como se o mundo tivesse acabado e tivessem ficado as cidades, os bancos de jardim, os caixotes do lixo, os cadeados e as bicicletas, as sarjetas, mas nenhum ser vivo (aproveito para expressar a minha dúvida sobre se as sarjetas serão ou não seres vivos).
Eu cá ando, parece-me ainda que estou de férias. Sem aulas, sem conhecer ainda muita gente porque esta é uma época de transição, com os dias livres para passear, ler, conversar. Ando bem, hoje estou doente é verdade, mas bem disposta. E tu? Vai dando notícias, que isto sem saber de ti não vai ser o mesmo. De qualquer das maneiras estarei aí pelo Verão e aí falamos, numa esplanada com uma bela imperial, eu falo-te destes meus dias e tu falas-me desses teus dias. Estou bem, mas tu já desconfiavas não era? Já sabias que ia gostar disto. E tu também vais gostar.
Um abraço, de mim simplesmente para ti
ana